sábado, 30 de julho de 2016

Homens sem tambor

Todas as pessoas usam botas
Estão vestidas para matar
E para morrer
Por ideal nenhum
O ideal é a pátria sem ideais
O propósito
São os mesmos partidos sem fins
E nós
estamos no meio arrancados
e de botas, sol a pino
Solução
para dissolver as mágoas
Numa batida bem forte
Dos tambores de candomblé
Numa saída sem paradeiro
Para uma derrocada fatídica
Nós,
Os homens sem tambor
E sem ideais

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A criança

A criança em mim 
busca refúgio 
na mulher em mim
agarra seu ventre 
na madrugada
não quer mais brincar 
de escuro da morte 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Les jambes en l'air

Les jambes en l'air
Comme une femme lubrique
Le vent mauvais de Verlaine
T'as transporté
Comme les fleurs
De Baudelaire
Mais je ne veux pas pleurer
Je ne veux pas parler
À peine un vent mauvais
Qui passait
Laisse le passer
Laisse le passer

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Adoleta

Adoleta
Eu com ele
Você sem ninguém
Adoleta 
Ele sem mim 
Eu sozinha  
Adoleta 
Quanto mais respiro 
mais me sinto quente
Adoleta 
Ele se foi
Adoleta 
Dela nada restou
Adoleta 
Eu com ele
Você sem ela
Adoleta 
Me conta uma mentira 
que termine assim
Adoleta 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Mordida

Meus gestos quase me tocam e lembram a sua mão 
para chegar ao pão preciso passar por você
me viro assim incansável para enxergar seu rosto 
todos os dias no mesmo lugar
me perguntam se deixaria de te amar 
respondo que não
se deixaria de seguir pela mesma rua

respondo que nao
se deixaria de sonhar com você
respondo que não
a poesia abre passagem a cada mordida 

como o pão
respondo que não 

Balão

As estátuas se puseram a cantar 
Estão vivas por dentro da pedra 
A infância veio sorrir por dentro 
delas 
Brindou com abobrinha e escárnio 
A cena filmada parecia com cetim 
E depois estava viva numa 
gargalhada
Andava num burrico 
E tinha olhos de cobra 
Num jardim sem jardineiro 
Molha as plantas e acentua o mel 
Ri-se das abelhas 
Cuidado é um pote de melado 
Olha a pipa!
Espreitam o futuro 
Quando gente viva não for de pedra


Da lembrança do bebê na rede de balanço

Ela tinha família
E ele tinha chapéu
Um dia morreu a família
E o chapéu ficou
Obsoleto sobre a cama
Ela tinha família
Ele tinha o samba
Um dia morreu a família
E o samba ficou
Obsoleto no sangue
Ela jura que tinha família
Morreu a jura
Ficou a prece
Obsoleta